Contexto
Nasci depois da Revolução dos Cravos, numa família com raízes a norte do rio Mondego. Em Liberdade mas ainda com resquícios do “quero”, “posso” e “mando”. Sou o mais novo de cinco e não cresci com a presença de uma terceira geração. Perdi o meu avô materno, o único que conheci, pouco depois de completar os três anos de idade e não fiquei com recordações, como tantas outras crianças, de fins de semana ou férias em casa dos avós.
Por outro lado, não senti falta de outros “bens” materiais ou mesmo da possibilidade de aproveitar os quentes meses de agosto na praia, quando o tédio ainda era muito e o tempo parecia não ter fim. Longos verões onde o descanso era real, a rotina existia e compensava a azáfama do primeiro e último dia de férias. Pareciam um regimento de infantaria. Tudo tinha de ficar “impecável” e as “tropas” lá iam compondo o espaço para a autotenda - uma Tular-GT-2. Era um dia inteiro para a chegada e outro na partida, para ficar limpa e bem acondicionada até à próxima temporada, no regresso a casa. Uma meia dúzia de anos, a obedecer a ordens “superiores”: “mais para aqui”, “puxa mais para cima” ou “vem cá”, “traz o balde” e “passa aqui um pano”. Durante a estadia, sobretudo nos dias úteis, acalmava um pouco porque havia sempre muita “obra” e “projeto” para fazer, e não havia tempo para o merecido descanso de um profissional sempre em hiperatividade.
Em casa, ao longo dos anos, foram os “acordos” bilaterais a prevalecer em detrimento dos encontros verdadeiramente multilaterais (mal comparado, como na geopolítica). Nas épocas festivas – Natal, Páscoa ou, mesmo, os aniversários, foi sendo possível reunir toda a família próxima mas, por vezes, com algumas dificuldades logísticas e, normalmente, cedências de uma parte. Apesar do calendário ser fixo e conhecido à partida, sempre ouvi muitas desculpas: “não posso”, “não me dá jeito” ou “não me apetece” e “venham cá, vocês, antes, porque assim é mais fácil para nós”. Dúvidas até à última hora e para quem gosta de organizar tudo com tempo, como as tradicionais celebrações merecem e exigem, foi complicado para organizar e preparar a casa, efetuar as compras ou as encomendas necessários – Nunca entendi o porquê, mas às vezes parecia-me mais fácil dividir do que reunir; talvez a dispersão territorial tenha, também, tornado difícil para todos criar raízes num único ponto de encontro…
A sociedade e a economia também fizeram o seu (e o nosso) caminho, e a individualização foi aumentando. Incluindo dentro de cada família, onde o “nós” deveria estar sempre antes do “eu”, porque só assim se pode fortalecer o espaço comum, de todos, essencial à liberdade individual, de cada um. Alimentámos (ou deixámos alimentar) egos com, por exemplo, compras ou pequenos prazeres momentâneos mas meros atos individuais: em véspera de Natal e à hora de fecho do comércio; para receber convidados VIP, durante uma curta visita de trabalho ou lazer; ou, após meses de deslumbramento com um chamativo anúncio comercial na TV; e, até, imaginem: com novidades que, na sua época, poucos tinham, mas estávamos mesmo a “precisar” – o último grito da moda! O resultado posterior é quase sempre o mesmo: o número de utilizações de cada equipamento é reduzido... Talvez porque a espera entre a compra e a efetiva receção das “prendas” é grande ou a ansiedade do momento não permite a reflexão acerca da real necessidade e prioridade.
Anos mais tarde, eis que os “projetos” voltaram mas desta vez com “planos” unipessoais. Quem sabe, para recuperar a “autoridade”, controlar novamente o território e tomar posse de muitos dos objetos comuns, transformando-os em pessoais para uso exclusivo e mero bel-prazer. Assim como também regressaram as intermináveis conversas (às vezes, monólogos) ao telefone, que todos são obrigados a ouvir ou a utilizar uns tampões no ouvido. Tantas “ideias”, “projetos” e “planos” (quase sempre inconstantes, como um fósforo) para construir de novo ou destruir o que ficou?
Muitas realidades nos influenciam e de tudo podemos beber inspiração... Espero continuar com o meu próprio “registo” e (re)começar porque mais ninguém espera por mim.